Image

QUICK CONTACT

Nome*

Email*

Mensagem

Por uma nova história do cinema no PrimeBoxBrazil

Image

Por uma nova história do cinema no PrimeBoxBrazil

July 7, 2017

Onde estavam as cineastas mulheres na década de 30, quando o primeiro grande estúdio da indústria cinematográfica brasileira, chamado Cinédia, foi criado? Por que da Chanchada aos filmes da antiga produtora Vera Cruz, na década de 40, o retrato do feminino nas telas era de sexo frágil, o objeto sexual a ser desejado e subjugado pelo homem? Como a realidade do Brasil invadiu as telas e conquistou fama internacional sem que nenhuma mulher assinasse a direção de um longa metragem representativo do Cinema Novo?

O longa POR UMA NOVA HISTÓRIA DO CINEMA, que será exibido no canal PrimeBox e está sendo desenvolvido pela produtora Lascene com financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual (PRODAV 1), pretende promover uma reflexão sobre as relações entre o cinema e a figura social da mulher, ou mais amplamente do feminino, encarado em suas várias manifestações de gênero (mulheres “padrão”, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, queers, sismance, etc.) e em suas representações (mãe, esposa, namorada, tia, solteirona, “executiva”, “loba”, dominatrix, etc.).

Com roteiro de Vanessa Souza, do projeto Mulheres de Luta, que promove o empoderamento da mulher através do audiovisual, e de Hernani Heffner, Curador Adjunto da Cinemateca do MAM, a produção está em fase de pesquisa e a previsão de estreia é para 2018.

Sob uma perspectiva temporal, o nexo entre a mulher e o cinema surge em um momento de intensa transformação histórica, com a segunda revolução industrial, que vai incorporar progressivamente o contingente feminino no mercado de trabalho e em um novo regime familiar e cultural. Ao mesmo tempo grupos feministas começam a lutar por uma autonomia, independência e empoderamento das mulheres, através dos movimentos sufragistas e depois dos movimentos feministas, buscando a equiparação legal, econômica e política com o mundo masculino, em suas mais variadas esferas, incluindo a do poder. O processo se desenvolve em muitas frentes, das quais uma das mais importantes vem a ser o cinema.

Embora a presença de realizadoras e técnicas seja minoritária em praticamente todas as fases da história do cinema, com ligeiro crescimento no último quarto do século XX e começo de XXI, o cinema foi um campo onde a figura feminina ganhou destaque de muitas formas, como personagens, espectadoras/consumidoras, roteiristas e como tema, sem esquecer a persistente busca por uma presença maior atrás das câmaras e na finalização dos filmes. Mais importante do que isso, o cinema incorporou, talvez mais fortemente do que qualquer outro meio de expressão artística, as contradições que cercavam a posição social da mulher e o questionamento desse status quo, assim como o desejo de superá-lo. Boa parte dos argumentos ficcionais criados a partir de 1910 giravam, de uma ou de outra forma, em torno da identidade feminina oprimida e do desejo de ascensão conjugado a uma independência. Ser vamp (arquétipo de mulher sedutora e geralmente perversa) em vez de esposa, sacrificar a família em nome do desejo, dominar em vez de ser dominada. Estas eram as opções colocadas em jogo, ainda que o final trouxesse a derrota, o conformismo ou a submissão à moral burguesa, herdeira da concepção grega sobre a “inferioridade natural da mulher”, por “incapacidade de pensar”, e da concepção judaico-cristã, que lhe reservou o papel ou da pecadora (Eva) ou da virtuosa virginal (Maria), desdobrados em inúmeras variáveis. O equilíbrio final com o par romântico nunca foi suficiente para satisfazer os desejos reais e nunca enganou a maior parte das espectadoras.

No Brasil, a trajetória de mulheres e personagens femininas também tem rica história no cinema, e é mais nuançada do que parece à primeira vista, lembrando a condição do país como sociedade de forte acento patriarcal. Basta lembrar a associação do feminino ao desejo de um novo país na década de 1920, surgindo a mulher como símbolo de transgressão em filmes como “Barro Humano”, “Limite” e “Ganga bruta”. Ou recordar o pioneirismo de Carmen Santos em se propor como mulher liberada, à semelhança das estrelas juvenis de Hollywood, estrelando, escrevendo, produzindo e dirigindo filmes, que enfrentam justamente a barreira do machismo reinante. Ou resgatar a famosa “Lei dos Tipos”, com que a revista Cinearte classificava nossas atrizes/personagens, em surpreendente visão do feminino. É em torno do fim da República Velha e do regime instaurado com a Revolução de 30 que surgem as primeiras cineastas, uma assinando seu filme, Cléo de Verberena, e outra dirigindo na prática, mas permanecendo apenas como a estrela, Lia Torá. Não se deve esquecer ainda o pioneirismo de Rosina Cianelli, primeira fotógrafa e laboratorista da área, ainda no silencioso.

O quadro de mocinhas insinuantes, vamps, assédios e amantes cinematográficas traça um quadro distante do romantismo, normalmente associado ao cinema. Talvez porque o romantismo brasileiro tenha personagens femininas mais complexas, como Lucíola e Aurélia (Senhora), que já expunham certas contradições da sociedade brasileira. Ao contrário do cinema hollywoodiano onde nos primeiros tempos a personagem da mãe é fundamental, aqui a jovem vai ter mais destaque e enfrentar certos conflitos de geração. A “mãe” se torna mais significativa a partir dos anos 80, em filmes como “Eles não usam black-tie”, “Central do Brasil” e “Zuzu Angel”. Na era getulista, apesar dos avanços sociais, e do voto feminino, a representação do feminino no cinema brasileiro se torna mais conservadora, com a chanchada confirmando os estereótipos clássicos – a mocinha, a megera, a enjeitada, a tia solteirona, a empregada furona, etc. No entanto essa representação também tem nuances, pois introduz a representação de classe de forma mais clara, embora caricatural. Também traz a regionalização, a questão racial e o gênero, com a nordestina, a negra, a camponesa, o travesti. O influxo advindo da segunda guerra mundial também traz novidades, com a introdução da jovem “moderna”.

A mudança mais significativa, porém, acontece com o Cinema Novo, que é um cinema machista, mas que tem abertura para as opressões da sociedade, inclusive a da mulher. O filme inaugural trata diretamente disso, que é o “Porto das Caixas”, do Saraceni. A história, real, gira em torno justamente de uma esposa que está insatisfeita em todos os sentidos com o marido e planeja assassiná-lo. Inicialmente delega a tarefa ao amante, mas com o recuo dele ela mesma executa o crime, e na hora tem um regozijo de libertação, que inclui até mesmo o gozo literal. Essa nova personagem se desdobra mais por personalidades do que mulheres ficcionais. As Leilas Diniz produzem a revolução feminista e a encarnam no cinema, ainda que seus papéis não sejam exatamente libertários o tempo todo. É o momento de repensar a idéia do feminino e surgem as primeiras cineastas feministas como Helena Solberg, Tereza Trautman e Ana Carolina, que investigam claramente o feminino em seus respectivos cinemas e se mantém fiéis a essa perspectiva ao longo da carreira.

A visão do feminino também se diversifica em filmes como “Perdida”, “Bete Balanço”, “Com licença eu vou à luta” e “Amor maldito”, de temática homossexual, que é considerado o primeiro longa metragem dirigido por uma cineasta negra, Adélia Sampaio. Surgem também personagens gays, como o Madame Satã travestido de Rainha Diaba. A partir de então, a questão do feminino/mulher em sentido amplo não abandona mais o cinema brasileiro. E isto atinge um ponto de inflexão final quando Carla Camurati dirige Carlota Joaquina, refazendo a história do Brasil, do ponto de vista feminino e para uma espectadora feminina, integrada à narração.

Em uma breve análise do cinema brasileiro produzido hoje, percebe-se que as representações do feminino estão sendo tratadas de maneira menos estereotipada. Protagonistas jovens, velhas, negras, nordestinas, gordas, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, queers, etc., figuram entre personagens, diretoras e técnicas de filmes. Os temas abordados também se expandiram e sofisticaram, estando comumente entre eles: a mulher enquanto objeto de desejo sexual; a exploração sexual; a homoafetividade; a crise matrimonial; o papel social da mulher negra da periferia; a figura da matriarca nas famílias de baixa renda; o envolvimento da mulher com o crime; as questões existências da mulher jovem; e o romantismo na contemporaneidade.
De maneira geral, o documentário “Por um nova história do cinema” parte da premissa de que o papel da mulher na sociedade está se modificando e, consequentemente, sua representação nas telas também. No sucesso “Que horas ela volta?”, por exemplo, a diretora Anna Muylaert desenvolve uma narrativa em torno de três protagonistas femininas: patroa, empregada e sua filha, e, assim como em muitos outros filmes da cinematografia recente, as mulheres assumem, finalmente, o protagonismo nas relações de gênero.

Mas, apesar dos avanços, ainda existe grande disparidade em relação a participação de homens e mulheres no audiovisual brasileiro. Se considerarmos raça e etnia, o panorama se mostra ainda mais desproporcional. Portanto, resgatar e refletir sobre a história das mulheres no cinema brasileiro, seja como realizadora, personagens, espectadoras/consumidoras ou tema, é uma forma de reconhecer que a diversidade como uma chave que nos conecta a mundos mais amplos e contribuir para a construção de um ambiente no setor audiovisual em que homens e mulheres sejam igualmente representados.

Image
Localização
Rua Hilário de Gouveia, 74 - 206. Copacabana
Image
Telefone
(21) 3563-7159
Image
Horários de Funcionamento
Seg-Sex 10 - 19h